Biodiversidade: um valor incalculável
Biodiversidade é algo que todos julgamos entender, mas que na verdade carece de definição exata e método de quantificação universal, ou o que Williams (como citado por Araújo, 1998) chama de conceito pseudocognitivo.
De que falamos então quando falamos de diversidade biológica? Número de espécies? De grupos tróficos? Ou de atributos taxionómicos?
Alguns autores consideram que as espécies ditas “key-stones”, com um papel preponderante nos ecossistemas, valeriam mais do que outras no cálculo da biodiversidade. O problema desta ideia reside na dificuldade de estimar com rigor a importância das espécies para os ecossistemas, se em alguns casos a sua mais-valia é óbvia, em muitos outros é fácil subestimar a sua importância até ao seu desaparecimento.
Durante muito tempo vários autores defenderam que as campanhas para salvar os pandas, que tiveram grande protagonismo entre movimentos conservacionistas, eram uma perda de tempo, já que esta espécie estaria num “beco evolutivo sem saída” e condenada a viver em jardins zoológicos. Essa noção tem vindo a ser contestada por muitos outros autores (Wei et al., 2015) e a espécie parece ter agora melhores perspetivas de sucesso no estado selvagem do que nas décadas anteriores (Yang et al., 2018).
A verdade é que é extremamente difícil prever o impacto do desaparecimento de uma espécie em particular, e uma vez desaparecida é todo um potencial genético que desaparece. Mesmo que uma espécie desapareça de forma relativamente discreta, sem aparente impacto negativo no seu ecossistema, a perda da riqueza genética que esse desaparecimento implica significa que esse ecossistema terá uma menor capacidade de resposta a uma futura mudança de condições (mudança climática, poluição, etc.).
Se espécies como os pandas são capazes de gerar enorme empatia e são importantes nomeadamente para cativar a recolha de fundos para a preservação, essa preservação não deve focar-se numa única espécie mas em toda a biodiversidade do ecossistema. Quando uma espécie desaparece, seja ela qual for, a biodiversidade baixa, mesmo que não tenhamos ainda um valor universalmente aceite para quantificar essa perda.
Desconhecemos o número exato de espécies no planeta, tudo o que temos são estimativas (Wilson, 1988). Espécies houve que desapareceram por ação humana sem nunca terem sido identificadas. Ter noção das limitações do nosso conhecimento é vital para prevenir mais perdas. Sendo ainda impossível definir e calcular com rigor e de forma consensual o que constitui biodiversidade, é certamente consensual que a sua redução é uma perda irreparável numa escala de tempo humana.
Araújo, M. (1998). Avaliação da biodiversidade em conservação. Silva Lusitana , 6(1):19-40 .
Yang, Z., Gu, X., Nie, Y., Huang, F., Huang, Y., Dai, Q., … Wei, F. (2018). Reintroduction of the giant panda into the wild: A good start suggests a bright future. Biological Conservation, 217, 181–186. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2017.08.012
Wei, F. et al. (2015). Giant Pandas are not an evolutionary cul-de-sac: evidence from multidisciplinar reasearch. Mol Bio Evol, 32(1):4-12.
De que falamos então quando falamos de diversidade biológica? Número de espécies? De grupos tróficos? Ou de atributos taxionómicos?
Alguns autores consideram que as espécies ditas “key-stones”, com um papel preponderante nos ecossistemas, valeriam mais do que outras no cálculo da biodiversidade. O problema desta ideia reside na dificuldade de estimar com rigor a importância das espécies para os ecossistemas, se em alguns casos a sua mais-valia é óbvia, em muitos outros é fácil subestimar a sua importância até ao seu desaparecimento.
Durante muito tempo vários autores defenderam que as campanhas para salvar os pandas, que tiveram grande protagonismo entre movimentos conservacionistas, eram uma perda de tempo, já que esta espécie estaria num “beco evolutivo sem saída” e condenada a viver em jardins zoológicos. Essa noção tem vindo a ser contestada por muitos outros autores (Wei et al., 2015) e a espécie parece ter agora melhores perspetivas de sucesso no estado selvagem do que nas décadas anteriores (Yang et al., 2018).
A verdade é que é extremamente difícil prever o impacto do desaparecimento de uma espécie em particular, e uma vez desaparecida é todo um potencial genético que desaparece. Mesmo que uma espécie desapareça de forma relativamente discreta, sem aparente impacto negativo no seu ecossistema, a perda da riqueza genética que esse desaparecimento implica significa que esse ecossistema terá uma menor capacidade de resposta a uma futura mudança de condições (mudança climática, poluição, etc.).
Se espécies como os pandas são capazes de gerar enorme empatia e são importantes nomeadamente para cativar a recolha de fundos para a preservação, essa preservação não deve focar-se numa única espécie mas em toda a biodiversidade do ecossistema. Quando uma espécie desaparece, seja ela qual for, a biodiversidade baixa, mesmo que não tenhamos ainda um valor universalmente aceite para quantificar essa perda.
Desconhecemos o número exato de espécies no planeta, tudo o que temos são estimativas (Wilson, 1988). Espécies houve que desapareceram por ação humana sem nunca terem sido identificadas. Ter noção das limitações do nosso conhecimento é vital para prevenir mais perdas. Sendo ainda impossível definir e calcular com rigor e de forma consensual o que constitui biodiversidade, é certamente consensual que a sua redução é uma perda irreparável numa escala de tempo humana.
Araújo, M. (1998). Avaliação da biodiversidade em conservação. Silva Lusitana , 6(1):19-40 .
Yang, Z., Gu, X., Nie, Y., Huang, F., Huang, Y., Dai, Q., … Wei, F. (2018). Reintroduction of the giant panda into the wild: A good start suggests a bright future. Biological Conservation, 217, 181–186. https://doi.org/10.1016/j.biocon.2017.08.012
Wei, F. et al. (2015). Giant Pandas are not an evolutionary cul-de-sac: evidence from multidisciplinar reasearch. Mol Bio Evol, 32(1):4-12.
Wilson, E.O. (1988). The current state of biological diversity . In Biodiversity. National Academy Press, USA.
Olá Vítor!
ResponderEliminarTambém concordo contigo quando referiste que o ser humano, em gera, não tem a perceção da importância e do valor das espécies nos ecossistemas e nos seus serviços. Por vezes, desconhecem que o desaparecimento de uma espécie pode levar a um grave desequilíbrio dentro do ecossistema. Acredito que uma espécie só estará verdadeiramente protegida quando o Homem entender a importância que ela tem para ele (indivíduo) e que valor lhe pode dar. Infelizmente, a maior parte de nós age por interesse e não por amor, respeito e responsabilidade.
Cumprimentos,
Patrícia Rosário
1901553
Olá Vitor,
ResponderEliminarEsta abordagem é muito interessante.
O facto de uma espécie estar em risco de extinção pode significar que o seu ecossistema já está a ser degradado há muito mais tempo.
O argumento de que para proteger uma espécie, deve ser tratado todo o ecossistema é muito válido, e na minha opinião, não pode ser de outra forma. Ao definir ações de conservação numa única espécie do ecossistema, estamos a esquecer o lugar que esta ocupa numa cadeia alimentar e do que necessita para sobreviver (que muitas vezes pode passar pela existência de outras espécies-chave do mesmo ecossistema).
Enquanto que existem espécies ameaçadas de extinção ameaçadas que por serem mais mediáticas à escala planetária, conseguem mobilizar atenções para a necessidade da conservação de espécies em declínio. Não podemos deixar de sensibilizar para a importância da conservação de outras que por interesses económicos ou culturais são mais difíceis de conseguir atenção (exemplo da limitação da pesca da sardinha). Temos também exemplos pelo país inteiro de espécies com menos distribuição territorial que muitas vezes apenas têm valor como património natural e essas são ainda mais difíceis de proteger pois não são quantificáveis na esfera económica.
Cumprimentos,
Vasco Batista
Olá Vítor, boa tarde
ResponderEliminarMuito interessante seu texto! A abordagem de preservação de espécies é tão importante quanto entender todo o ambiente macro em que elas se desenvolvem. Assim como relatou o colega Vasco, é preciso se atentar e se preocupar com a preservação dos ecossistemas como um todo, pois com a existência da possibilidade de extinção de uma espécie por exemplo, já nos mostra que todo o sistema pode estar comprometido.
Dou o exemplo também da Arara-Azul no Brasil, que é uma ave com risco severo de extinção, pois tem seu valor atribuído à economia. Suas asas têm grande valor no mercado internacional e por isso é bastante vitima de caçadas ilegais e contrabando. Além disso, o acelerado processo de desmatamento em seu habitat natural também provoca ônus à sobrevivência dessas aves.
Paola Pessoa
Vítor, muito bom. Apresenta uma reflexão sucinta, muito bem estruturada, em que aprofunda tanto (i) a temática da diversidade de conceitos de biodiversidade (e problemas metodológicos associados), como os valores da biodiversidade, concretizando no exemplo da espécie chave ("keystone") panda.
ResponderEliminarEntre os conceitos importantes - a reter - para a área da conservação da biodiversidade, contam-se: espécie-chave (“Keystone species” que referiu), nicho, habitat, comunidade ecológica, ecossistema, “hostspots” de biodiversidade; espécie invasora.
Continuação de bom trabalho, Paula Nicolau