Geodiversidade de um pequeno país

O conceito de "Geodiversidade" deriva etimologicamente do de "Biodiversidade", sendo geralmente interpretado como a diversidade geológica. No entanto alguns autores consideram que a parte biológica do mundo também integraria o conceito, ou por outras palavras, que a biodiversidade é parte da geodiversidade. A discussão continua aberta, afinal Gray (como citado por Brilha, 2005) estima que o conceito surgiu só neste século. Mas geralmente é aceite que apenas a parte abiótica do planeta integra a geodiversidade, o que naturalmente exclui seres vivos, mas inclui fósseis ou recursos hídricos.

Isso não significa no entanto que sejam entidades independentes. A biodiversidade é extremamente dependente da geodiversidade do meio, um caso óbvio é a influência dos constituintes geológicos do solo no crescimento das plantas (o que é ideal para algumas espécies, é inibidor para outras). Por outro lado a biodiversidade influencia também a geodiversidade, basta pensar nos fósseis formados há milhões de anos e que testemunham as espécies vivas nesse tempo.

Numa perspectiva antropocêntrica a geodiversidade determina os materiais disponíveis para consumo humano, nomeadamente para a construção de habitações, influenciando assim a arquitetura e limitando ou impulsionando o crescimento das cidades. Por outro lado a humanidade tem também um impacto na geologia, o impacto é de tal ordem que os geólogos discutem agora a possibilidade de declarar uma nova era geológica, o Antropoceno (Carrington, 2016).

Incrustado entre a Bélgica, a Alemanha e a França, o Luxemburgo é um pequeno país (2.586 km2), mas a sua geodiversidade é surpreendente (Maquil & Colbach, 2009) e um constitui um bom exemplo do impacto que esta tem no desenvolvimento da sociedade. 

O mais longo curso de água em território luxemburguês é o Sauer, um afluente do rio Mosela. Este último é a única ligação fluvial do país ao mar, desembocando antes disso no Reno, junto à cidade alemã de Coblença. O Mosela alberga então o único porto de carga no país, em Mertert, no Sudeste do país.

Montanhoso a norte e plano a sul. É na parte meridional do Luxemburgo, a também chamada Gutland, que se concentra a maior parte da população. E é na parte setentrional, Eisleck, onde se encontram as maiores florestas. Aquando da ocupação napoleónica o território foi simplesmente chamado de “Departamento das Florestas”.

A capital, com o mesmo nome, situa-se na confluência de dois pequenos rios, o Alzette e o Pétrusse no centro da Gutland. A rede de túneis de defesa escavados nas escarpas de arenito que circundam os dois cursos de água foram essenciais para a proteção da cidade e são hoje património mundial da UNESCO. 

A Sul encontram-se as antigas vilas mineiras das chamadas “Terras Vermelhas” (Terres Rouges), nome derivado do vermelho dos solos, a região com as minas de ferro que impulsionaram a siderurgia no século XX e transformaram o que era um território periférico, pobre e rural, de onde muitos partiam para a emigração nos Estados Unidos, Argentina ou Brasil, no país industrializado, rico e destino de imigrantes que é hoje (Trausch, 2011).

Atualmente 37% do território é ocupado por florestas e 53% é usado para fins agrícolas, desses cerca de metade é usado para pastagens de gado (Ministry of Agriculture, 2016). O vale do Mosela é especialmente conhecido pela produção de vinho da casta Riesling e também pelos vinhos espumantes “Crémant de Luxembourg”, com várias festividades associadas. A proteção dos solos é assim uma prioridade neste país mais conhecido pelos seus setores financeiro e industrial. O governo mantém um cadastro de solos contaminados e desenvolve planos de recuperação dos mesmos.

Falar em geodiversidade recordou-me imediatamente a foto que ilustra este texto e que tirei num passeio pela floresta quando ainda vivia no Luxemburgo. Nela vemos um painel com um mapa explicativo da geologia do país e no solo um mapa feito com amostras das rochas de cada região. Parece-me uma excelente ideia para explicar e promover o conceito de geodiversidade. Atravessando o país de Norte a Sul, algo possível numa agradável viagem de comboio de menos de 2 horas, é fácil percebermos drásticas mudanças na paisagem, natural e humana, que de forma mais ou menos direta se podem explicar através da geodiversidade local.


Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Viseu: Palimage editores.

Carrington, D. (2016). The Anthropocene epoch: scientists declare dawn of human-influenced age. The Guardian. Disponível em https://www.theguardian.com/environment/2016/aug/29/declare-anthropocene-epoch-experts-urge-geological-congress-human-impact-earth

Maquil, R. & Colbach, R, (2009). Overview of the geology of Luxembourg. Service Géologique. Disponível em http://www.geology.lu/index.php/geologie-du-luxembourg/apercu-geologique/10-overview-of-the-geology-of-luxembourg 

Ministry of Agriculture (2016). Luxembourgish Agriculture. Facts and Figures. Luxemburgo: Ministry of Agriculture.

Trausch, G. (2011). História do Luxemburgo (L. Duarte, Trad.). Luxemburgo: Ministère de la Culture. (Trabalho original em francês publicado em 2003)

Comentários

  1. Gostei muito do texto!
    É um ótimo exemplo de uma grande geodiversidade num pequeno território, tal como também acontece no nosso país.
    Os aspetos apresentados evidenciam como um pequeno território pode ter muitos valores de geodiversidade, tal como refere Brilha (2005). A dimensão do território não impede da diversificação de paisagens e de recursos que podemos encontrar no Luxemburgo.
    É também com satisfação que li a preocupação que existe com a proteção do território de um país com um grande desenvolvimento económico, como é o Luxemburgo.

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  2. Gostei muito da ideia do mapa feito de amostras de rochas, aliado também a um mapa explicativo. Seria uma ideia interessante na qual buscar inspiração para algo semelhante por cá.

    Além disso, penso que a informação contida nas Cartas Geológicas deveria ser transmitida como parte essencial do conhecimento, com uma ideia geral planetária e a nível de país, e mais detalhadamente a nível local. Penso que a transmissão do conhecimento da Geologia e da Geografia Física às populações é essencial, pois permite a real valorização da Geodiversidade...

    Cumprimentos,
    Carla Sofia Duarte

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