Ilhas sem árvores, um aviso para a humanidade

Desde que há vida na Terra que ocorreram fenómenos de extinção em massa, de dezenas em dezenas de milhões de anos, o que reduziu de forma dramática a biodiversidade existente. A longo prazo ela foi não só recuperada mas, graças à contínua evolução, poderá até ter sido superada (Wilson, 1988) - embora grupos inteiros de espécies tenham desaparecido para sempre.

Mas de um ponto de vista antropocêntrico, e tendo em conta que a espécie humana existe apenas há 315 milhares de anos e o tempo de vida médio de cada indivíduo não chega sequer ao século, uma escala temporal de dezenas de milhões de anos não é uma boa referência. Pensarmos que mesmo que assistamos hoje a uma extinção em massa, daqui a milhões de anos ela terá sido compensada, não é uma estratégia inteligente para os interesses da nossa própria espécie. Por isso quando falamos na necessidade de proteger a biodiversidade, falamos da biodiversidade que tem acompanhado a existência da nossa própria espécie e da qual dependemos.

E é precisamente das atividades da nossa própria espécie que derivam as principais ameaças à biodiversidade hoje: poluição, destruição dos habitats, espécies invasoras ou alterações climáticas são fenómenos que podem ter causas naturais, não-humanas, como já aconteceu no passado distante, mas hoje estes fenómenos são enormemente amplificados pela ação humana, ou mais especificamente pela exploração e consumo não sustentáveis dos recursos naturais.

As ilhas podem funcionar como facilitadores da especiação geográfica, por constituírem ecossistemas terrestres isolados, mas também têm uma capacidade mais limitada para albergar biodiversidade sendo por isso ecossistemas mais frágeis (Wilson, 1988), podem por isso mesmo constituir casos de estudo privilegiados de exploração excessiva de recursos.

A ilha de Páscoa é há muito apontada como um exemplo disso mesmo (Merico, 2017). Nesta ilha extremamente remota do Pacífico Sul, viveu durante séculos de total isolamento o grupo Rapanui, durante esse período de isolamento verificou-se a desflorestação da ilha e consequente perda de biodiversidade. Vários autores viram nessa perda a prova das teorias malthusianas sobre sobrepopulação. Hoje essa visão não é consensual e há autores que apontam outros fatores complementares para a desflorestação, como as ratazanas (por comerem as sementes que produziriam novas árvores), mas a intervenção humana foi ainda assim essencial.

Mesmo podendo não merecer a culpa em exclusivo pela desflorestação da ilha, certo é que os Rapanui foram dela vítimas, sem madeira parou a construção de canoas para pesca, tal como muitos outros usos práticos do material. Além do consequente desaparecimento de espécies de aves que eram fonte de alimento ou da maior erosão dos solos que reduziu a produção agrícola. É de crer portanto que os Rapanui teriam todo o interesse em manter esse recurso e no entanto não foram capazes de evitar o seu desaparecimento. A sociedade que criou as enigmáticas estátuas que cobrem a ilha parece muito distante do desolador retrato feito pelos primeiros europeus que desembarcaram na ilha (Cook, 1774).

A desflorestação da ilha de Páscoa está longe de ser caso único. Numa latitude muito diferente a Islândia experimentou uma destruição quase total da sua floresta, que tenta agora fazer renascer.


Estes casos fazem prova da especial fragilidade dos ecossistemas insulares, mas mostram também que uma sociedade tecnologicamente pouco avançada é capaz de causar grande dano ambiental, o que corrobora a ideia de que o homem será responsável pelo declínio do número de espécies verificado nos últimos 30.000 anos (Myers, 1996), ou seja, muito antes de ser capaz de produzir tecnologia altamente poluente como desde a revolução industrial. 

Estes casos constituem assim um aviso para a humanidade. Não há porquê acreditar que o que aconteceu nestas ilhas não se possa repetir a uma escala planetária. A grande diferença da atual vaga de extinções no planeta é precisamente, além da sua origem antropogénica, o facto de incluir espécies vegetais, algo que não aconteceu na última extinção em massa há 65 milhões de anos (Wilson, 1988). E embora os Rapanui tenham sobrevivido ao colapso do ecossistema florestal da ilha, isso não foi feito sem enormes custos, incluindo uma redução populacional e uma regressão tecnológica. 

Claro que hoje a humanidade tem em mãos tecnologia com a qual os Rapanui não poderiam sequer sonhar, a manipulação genética em laboratório representa simultaneamente uma solução de recurso com enorme potencial para reavivar ou melhorar espécies em risco, mas é também, ela própria, um risco acrescido para a biodiversidade, cujas consequências são difíceis de prever no imediato. As estátuas da ilha de Páscoa que fascinam pelo tamanho e posicionamento, trabalho que implicava uma técnica avançada para a época, são uma poderosa lembrança de que uma sociedade pode regredir tecnologicamente perante um colapso da biodiversidade. 


Cook, J. (1774). March 1774 - Off Easter Island. Capitain Cook Society. https://www.captaincooksociety.com/home/detail/march-1774-off-easter-island


Merico, A. (2017). Models of Easter Island Human-Resource Dynamics: Advances and Gaps. Front. Ecol. Evol.5. https://doi.org/10.3389/fevo.2017.00154


Myers, N. (1996). The Rich Diversity of Biodiversity Issues.


Wilson, E.O. (1988). The current state of biological diversity . In Biodiversity. National Academy Press, USA.

Comentários

  1. Tema bem escolhido e bem apresentado. Leitura muito agradável. Parabéns!

    De facto, além do caso exposto ao longo deste artigo, as grandes civilizações da antiguidade encontraram muitas vezes o seu fim devido à sobre-exploração de recursos... E observamos depois a séculos de regressão tecnológica e civilizacional. Basta observarmos a História das que nos são mais conhecidas e os anos (ou séculos) que se seguiram à sua queda...

    Para além daquilo que de forma mais óbvia podemos associar a alterações ambientais, muitas outras consequências escapam por vezes à nossa consciência sobre as reais causas da realidade observável.

    A exemplo disso, nos dias de hoje, de forma quase imperceptível, guerras com efeitos colossais sobre seres humanos e ecossistemas, iniciam-se muitas vezes como consequência de alterações ambientais. Temos o exemplo da guerra na Síria, em que um dos grandes factores que levaram ao seu inicio foram as migrações em massa das zonas rurais para as zonas urbanas, devido a uma sequência de anos de seca que forçaram as populações rurais a esse êxodo.

    E quais os impactos humanos, mas também ambientais, dessa e de outras guerras?

    Tudo está interligado. Os danos que causamos ao ambiente são danos que causamos também a nós mesmos.

    Vale a pena pensar nisto...

    --------------------------
    Carla Sofia Duarte

    ResponderEliminar
  2. A primeira vez que li sobre a ilha da Pascoa fiquei estupefecta, ainda era miúda e nunca tinha reflectido sobre a nossa dependência da natureza e suas consequências quando sobre-explorada. Há autores que referem também o papel da fé na aniquilação final das árvores, pois possivelmente, a população já em declínio, a morrer de fome e doenças, apelariam por salvação as entidades divinas através de rituais e sacrifícios, um desses rituais poderá ter envolvido de alguma forma, que já não recordo qual, o abate das ultimas árvores. Todos os recursos naturais foram ao longo dos tempos sacralizados por isso mesmo, por serem recursos, dádivas ou até mesmo um bem divino. Mas essa imagem desvaneceu-se com a evolução da tecnologia, e hoje em dia, o ser humano deposita a sua fé na tecnologia de forma cega. Murmuramos ao nosso umbigo "eu sei que não estou a fazer bem mas alguém vai nos salvar com uma invenção espectacular"

    ResponderEliminar
  3. Gostei muito da forma escolhida para abordar esta questão da perda de biodiversidade, e da fragilidade dos ecossistemas. Temo é que o exemplo da ilha de Páscoa não seja entendido em toda a sua dimensão.

    ResponderEliminar
  4. Muito obrigado pelos comentários colegas. A ilha de Páscoa é de facto fascinante, li há já muitos anos o livro de Thor Heyerdahl, "O segredo da ilha de Páscoa", explorador norueguês que tentou recriar a viagem até à ilha e o transporte das estátuas, usando apenas troncos e cordas. Ele conseguiu demonstrar que de facto era possível chegar à ilha remota de jangada ou mover aquelas estátuas. Mas para tudo isso eram precisas também árvores, recurso entretanto esgotado.. A história da ilha fascina-me desde essa leitura.

    ResponderEliminar
  5. Respostas
    1. Um caso similar aconteceu nas ilhas menores dos Açores – Graciosa e Corvo – em que, cerca de 200 anos após a sua colonização pelos portugueses (no séc. XV), as comunidades humanas estavam em risco de colapso, por falta de madeira. A floresta, outrora abundante nessas ilhas, desaparecera para dar lugar a campos agrícolas ou fora usada para subsistência. As comunidades humanas nestas ilhas apenas conseguiram sobreviver, “importando” madeira de outras ilhas ou queimando palha, arbustos e bosta de vaca. Terrenos insulares são modelos para a gestão sustentável dos recursos limitados de um qualquer sistema, como o próprio planeta Terra.

      Eliminar
    2. Muito obrigado professora,

      Interessante o exemplo açoriano. Li há pouco tempo "As ilhas desertas" do Raúl Brandão e o retrato que fez do Corvo de 1924 é especialmente desolador: "Não se vê uma árvore naquele enorme pedregulho batido pelas vagas". Nunca tive o privilégio de visitar, mas pelas imagens que já vi creio que as árvores não abundam ainda hoje. Na Graciosa sei também que continuam raras.

      Eliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares