Ameaças à Geodiversidade, o caso holandês
Tal como em relação à biodiversidade, é a atividade humana o que constitui a maior ameaça à geodiversidade atual. Claro que numa escala temporal de milhões de anos a geodiversidade do planeta está sempre em lenta mutação (só por vezes abrupta, como no caso de vulcões ou quedas de meteoritos). Mas numa escala temporal humana temos já assistido a vários casos de perda irreversível (nessa escala) de sítios geológicos únicos por via da exploração mineira ou da construção de infrastrutura (habitação, vias de transporte, barragens e outros).
Um caso extremo de alteração profunda da geodiversidade de uma região pela mão humana é o reino dos Países Baixos. Existe até o ditado "Deus criou o mundo, mas os holandeses criaram a Holanda". Não é um ditado imerecido, tendo em conta quase um terço do território se encontra abaixo do nível do mar, uma evolução visível na cartografia. Hoje o país dispõe de uma vasta rede de canais que serve de via de transporte, mas sobretudo para gerir o fluxo da água. Não por acaso o equivalente ao Ministério das Obras Públicas é chamado de "Ministério das Obras Públicas e Gestão da Água" (Rijksoverheid, 2019). Os típicos moinhos holandeses tiveram um papel vital nessa gestão dos fluxos, sendo usados para bombear água desde o século XIII (Coates, 2015).
Este complexo sistema de canais, diques e moinhos permitiu proteger o país das frequentes cheias que causaram várias tragédias ao longo da sua história e "roubar terra ao mar", os chamados polders, terrenos extremamente férteis abaixo do nível do mar que fizeram da Holanda uma das potências agrícolas europeias até aos nossos dias. Cidades inteiras foram construídas sobre os polders ou infrastruturas tão relevantes como o aeroporto de Schiphol, um dos mais movimentados do continente europeu.
No pós segunda guerra mundial a Holanda viria a descobrir uma outra importante fonte de riqueza, o maior reservatório de gás natural do continente europeu encontra-se no norte daquele país, na região de Groningen. Gás natural e polders foram dois ingredientes essenciais para a reconstrução do país no pós guerra, possibilitando o crescimento da economia e da população. A Holanda é o hoje um dos mais ricos e mais densamente povoados países da Europa, com boa parte da população a viver abaixo do nível do mar.
É fácil sentirmo-nos tentados a declarar a Holanda como um caso de sucesso do aproveitamento dos recursos geológicos. Um país plano, exposto a cheias catastróficas, hoje dono de algumas das infrastruturas mais impressionantes do continente, como o já referido aeroporto de Schiphol ou o porto de Roterdão. Mas essa seria uma conclusão simplista. Afinal a gestão dos fluxos de água e prevenção de cheias é um esforço contínuo e extremamente dispendioso e a construção nessas áreas é por vezes muito complicada devido à instabilidade dos solos. Por outro lado, a exploração do gás natural tem vindo a provocar tremores de terra à superfície, e os prejuízos em habitações são de tal ordem que o governo decidiu determinar o fim dessa exploração nos próximos anos (Boffey, 2018).
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| Os diques não aguentaram a força das águas em 1953, mais de 1800 pessoas perderam a vida. Novos e maiores diques foram construídos depois da tragédia. |
Mais do que "construída pelos holandeses", a Holanda é um trabalho de construção em curso e sem fim à vista. E é também um país com uma paisagem profundamente artificializada e uniformizada. Coates (2015) diz que os holandeses vêem a natureza não como algo a proteger, mas como algo a domar e do qual se protegerem. Não será contudo um traço exclusivo daquele país, sendo a proteção das populações humanas uma justificação frequente para várias construções que ameaçam o património geológico e hidrológico - não ocupar ou desocupar o território parece sempre uma possibilidade menos atraente.
Parte do problema começa desde logo pela menor sensibilidade para a geodiversidade, afinal um conceito mais recente e derivado da biodiversidade. Brilha (2005) defende por isso a urgência da inventariação de geossítios, ocorrências de especial interesse geológico, e na criação de proteções para áreas especialmente ricas nos mesmos, que servirão também para educar e consciencializar para a sua importância. Essa inventariação e classificação de áreas especialmente ricas em geossítios está materializada na Europa pela rede de Geoparks, que conta hoje 76 áreas classificados no continente (havendo p.ex. quatro em Portugal e uma na Holanda) (Geoparks, n.d.). Uma rede que se espera que continue a crescer em número e em reconhecimento público.
Com a prevista subida das águas do mar, devido ao aquecimento global, é provável que a estratégia holandesa de cada vez mais e maiores diques se torne a norma ao longo das costas do globo (Kimmelman, 2017). Parece-me por isso especialmente relevante o exemplo holandês e uma boa ilustração das ameaças à geodiversidade das zonas costeiras.
Nota: O termo Holanda é usado frequentemente para se referir a todo o reino dos Países Baixos, ainda que oficialmente seja apenas o nome de duas das doze províncias do país (Holanda do Norte e do Sul). Neste texto o termo Holanda é usado como sinónimo da integralidade dos Países Baixos.
Nota: O termo Holanda é usado frequentemente para se referir a todo o reino dos Países Baixos, ainda que oficialmente seja apenas o nome de duas das doze províncias do país (Holanda do Norte e do Sul). Neste texto o termo Holanda é usado como sinónimo da integralidade dos Países Baixos.
Boffey, D. (2018, 23 de janeiro). Gas field earthquakes put Netherlands’ biggest firms on extraction notice. The Guardian. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2018/jan/23/gas-field-earthquakes-put-netherlands-biggest-firms-on-extraction-notice
Brilha, J. (2005). Património Geológico e Geoconservação: A Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica. Viseu: Palimage editores.
Coates, B. (2015). Why the Dutch are different. Londres: Nicholas Brealey Publishing.
Geoparks (n.d.). Meet our Geoparks. Disponível em: http://www.europeangeoparks.org/?page_id=168
Geoparks (n.d.). Meet our Geoparks. Disponível em: http://www.europeangeoparks.org/?page_id=168
Kimmelman, M (2017, 15 de junho). The Dutch Have Solutions to Rising Seas. The World Is Watching. The New York Times. Disponível em: https://www.nytimes.com/interactive/2017/06/15/world/europe/climate-change-rotterdam.html
Rijksoverheid (2019). Ministry of Infrastructure and Water Management. Disponível em: https://www.rijksoverheid.nl/ministeries/ministerie-van-infrastructuur-en-waterstaat


Parabéns pelo exemplo de ameaça à geodiversidade. Concordo plenamente com o exposto relativamente à construção dos diques, pois tal como defende Brilha (2005), nem sempre as grandes infraestruturas construídas a pensar nos benefícios, se tornam benéficas para as regiões, principalmente para a biodiversidade e geodiversidade.
ResponderEliminarMuito provavelmente os Países Baixos terão que a médio prazo pensar na devolução de terras ao mar!
Maria de Fátima Carvalheiro
Caro colega,
ResponderEliminarExcelente artigo! Parabéns pela escolha e pela forma como desenvolveu o tema, tocando vários pontos muito pertinentes, não só para o caso holandês mas, tal como referiu, para o resto do mundo, agora que teremos de encontrar formas de lidar com a subida do nível do mar, e com os fortes fenómenos climáticos, ambos derivados das alterações climáticas.
Teremos muitos questionamentos éticos e também práticos a que encontrar resposta. E as soluções encontradas pela Holanda, foram encontradas num clima mais estável, que lhes permitia alguma rentabilização económica no longo prazo. Num clima em mudança e repleto de instabilidade e fenómenos extremos, tal pode não ser viável...
Teremos certamente de assumir decisões cada vez mais complexas e difíceis... E será que enquanto sociedade estaremos capazes de o fazer? Dá que pensar...
Cumprimentos,
Carla Sofia Duarte
P.S.: Este verão o Geopark Estrela (Serra da Estrela) viu a sua candidatura aprovada pela UNESCO, pelo que neste momento temos em Portugal 5 geoparques mundiais da UNESCO: Geopark Naturtejo da Meseta Meridional; Geopark Arouca; Geopark Açores, Geopark Terras de Cavaleiros, e Geopark Estrela.
Muito interessante, este caso holandês. Mais um exemplo das consequências da interferência humana na natureza e processos naturais.
ResponderEliminarContinuação de bom trabalho :)
Muito obrigado pelos comentários colegas e obrigado Carla por essa informação sobre o Geopark Estrela ;)
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